Navegar

Ação

Navegar é preciso, viver não é preciso. Fernando Pessoa colocou essa frase na boca de Ricardo Reis — um dos seus heterônimos —, mas a frase é mais velha do que Pessoa: vem de Plutarco, que a atribuiu a Pompeu, que teria dito aos marinheiros hesitantes diante de uma tempestade mediterrânica: a navegação é necessária, a vida não é. Mas foi Pessoa quem entendeu o que a frase realmente dizia sobre a condição portuguesa — e, por extensão, sobre a condição de quem descende da gente que saiu em caravelas para águas que os mapas da época marcavam apenas como aqui moram monstros.

O Portugal que Luís de Camões imortalizou em "Os Lusíadas" é um Portugal que escolheu o mar como destino antes de saber o que o mar continha. Vasco da Gama não sabia o que encontraria além do Cabo da Boa Esperança. Sabia apenas que a rota existia, que o vento tinha leis que podiam ser aprendidas, e que ficar era uma forma de morte mais lenta do que a tempestade. Navegar é preciso é a frase de quem entendeu que a vida que não arrisca a travessia não é vida — é apenas existência em espera da morte que não tem a decência de ser dramática.

"A Terceira Margem do Rio": a navegação impossível

Guimarães Rosa, num conto de dezoito parágrafos que é um dos maiores da língua portuguesa, fez o seu personagem construir uma canoa e sair rio a fora — sem destino, sem retorno, sem explicação. A família que ficou na margem nunca entendeu. Os filhos cresceram sem entender. O narrador que conta a história do pai que escolheu o rio é o filho que passou a vida tentando chamar o pai de volta e que, no fim, percebe que a única forma de honrar aquele gesto era ir também para a água.

A terceira margem do rio é o lugar que não existe nos mapas — não a margem esquerda, não a margem direita, mas o que está no meio do próprio fluxo, aquilo que só pode ser habitado por quem escolheu não pertencer a nenhuma das duas bordas que o mundo reconhece como possíveis. É a navegação como condição existencial: não como movimento de um ponto a outro, mas como modo de ser permanente, como a escolha de habitar o que está sempre se movendo em vez de qualquer terra firme que prometa segurança.

Quando o sonho traz a imagem de navegar — de estar sobre a água, de conduzir uma embarcação por um rio ou por um mar — ele está tocando algo dessa mesma questão: a relação entre o que está firme e o que está em fluxo, entre a margem que oferece a ilusão de permanência e a água que não para nunca.

Iemanjá: a mãe que guarda os navegantes

No Candomblé, o mar pertence a Iemanjá. Ela é a mãe das águas salgadas, a que recebe os que se perdem no oceano, a que guarda os filhos dos pescadores e dos marinheiros com o amor que mistura proteção e perigo — porque o mar que Iemanjá governa não é apenas o mar calmo das praias no verão. É o mar de dezembro em Copacabana, quando milhões de pessoas de branco levam flores para a água na noite de ano-novo. É o mar que leva e que traz, que afoga e que devolve, que é o útero do mundo e também a sua boca.

O pescador brasileiro que sai antes do amanhecer em sua canoa de fibra sabe o nome de Iemanjá mesmo que não frequente terreiro. Ela está no gesto de olhar o tempo antes de sair, no respeito pela maré que não se discute, na oferenda que alguns ainda jogam no mar antes da primeira pescaria do ano. Ela está no entendimento corporal — não teológico, não racional, mas corporal — de que a água tem vontade e que navegar é entrar em relação com essa vontade, não em guerra com ela.

Sonhar com travessia quando Iemanjá está presente no sonho — quando as águas têm uma qualidade específica de grandiosidade feminina, quando a embarcação é vista de fora como se flutuasse no colo de algo enorme — é receber o axé da mãe dos mares. É a confirmação de que a travessia que está sendo feita tem proteção, tem guia, tem uma inteligência mais antiga que qualquer carta náutica.

O Amazonas: o rio que é oceano

O Rio Amazonas não é apenas o maior rio do mundo — ele é, em certos trechos, indistinguível do oceano para quem está no meio dele. A terra desaparece nos dois lados do horizonte. A água é marrom-café, carregada de sedimento de dois continentes, quente e densa e viva. Navegar o Amazonas não é navegar em água — é navegar em floresta líquida, em solo dissolvido, em toda a história geológica de uma bacia que tem o tamanho de um subcontinente.

Os barcos de linha que percorrem o Amazonas e seus tributários — as embarcações de dois ou três andares com redes penduradas no lugar de beliches, com o motor diesel que reverbera pelo casco de madeira durante dias e noites de navegação — são uma das experiências mais completamente brasileiras que existem. Dormir na rede enquanto o rio passa por baixo, acordar com o verde fechado das margens a dois metros de cada lado, comer peixe frito comprado de canoas que se aproximam das embarcações nas comunidades ribeirinhas: este é o Brasil que as capitais do sul-sudeste não conhecem, e que as capitais do norte vivem como cotidiano.

Sonhar com navegar num rio amazônico — com essa largura específica, com essa tonalidade específica de água, com o calor úmido que faz o sono pesado mas não desagradável — é sonhar com o Brasil que existiu antes de qualquer cidade, o Brasil que ainda existe nas margens que os mapas marcam como vazias mas que os ribeirinhos conhecem por nome, curva por curva.

Variantes oníricas frequentes

Cenário: Navegar em águas calmas com uma embarcação sólida e confiável: O barco que responde, o rio que coopera, o horizonte que está visível. Este sonho representa uma fase de vida em que a relação com as próprias emoções está equilibrada — não sem desafio, mas com a competência de quem sabe ler as correntes. É o período de navegação confiante, de projetos que avançam com a lógica das marés, de relações que têm a solidez de um casco bem construído.

Cenário: Navegar pelo Rio Amazonas ou por outro grande rio brasileiro: A navegação no maior rio do mundo tem uma qualidade de grandiosidade que modifica o significado de qualquer jornada. O Amazonas não é um rio que se atravessa — é um rio que atravessa você. Navegar nele no sonho é a psique indicando que a jornada que está sendo feita tem proporções maiores do que o cotidiano deixa ver; que o que parece travessia local é na verdade movimento num sistema mais vasto.

Cenário: O barco que naufraga ou que afunda gradualmente: A estrutura que sustentava a travessia cedendo à pressão das águas. A embarcação que vai a pique não representa necessariamente derrota — representa a necessidade de uma travessia diferente, de uma embarcação nova, de uma relação diferente com o que estava sendo navegado. O naufrágio dos Lusíadas foi o que produziu a poesia de Camões: ele sobreviveu, chegou à costa, e escreveu sobre o que o mar tinha feito com todos aqueles que partiram.

Cenário: Navegar sem saber o destino, mas com uma confiança tranquila na direção: O pai do conto de Guimarães Rosa não sabia para onde ia. Sabia apenas que o rio ia para algum lugar e que era preciso ir. Este sonho representa a maturidade de confiar no processo sem precisar conhecer antecipadamente o destino — a capacidade de orientar pelo movimento em vez de pela chegada, de encontrar sentido na travessia em si e não apenas no porto que ela promete.

Cenário: Iemanjá presente — as águas com qualidade de presença divina: Quando o mar ou o rio do sonho tem uma qualidade que vai além da água comum — quando parece que as ondas têm intenção, quando a profundeza por baixo da embarcação parece viva e atenta — é a presença de Iemanjá que se faz sentir. Este sonho não é para ser analisado friamente: é para ser recebido com a mesma abertura com que os devotos recebem as flores que o mar aceita ou devolve na noite de ano-novo.

Cenário: A travessia que chega a uma terra desconhecida: Vasco da Gama chegou à Índia e encontrou um mundo que os mapas europeus não continham. O sonhador que navega até uma terra sem nome no sonho está no mesmo registro mítico: a consciência que chegou a um território que o ego ainda não habituou. Pode ser uma nova fase de vida, uma nova capacidade, uma dimensão do self que até então estava além do horizonte do que era conhecido como possível.

Camões e o que ficou para trás

Os Lusíadas começam com a partida — com as naus que saem do Tejo levando os que ficam em lágrimas na margem. A mulher que chora enquanto o marido parte para o mar que pode ou não trazê-lo de volta; a mãe que olha a vela sumir no horizonte sabendo que pode estar olhando para o filho pela última vez. A grandiosidade épica da navegação portuguesa tem sempre essa outra face: o que ficou, o que esperou, o que foi deixado para trás no nome de um destino que prometia mais do que a margem poderia oferecer.

No sonho de navegar, é sempre relevante perguntar: o que você está deixando para trás? A travessia que leva à glória também exige a separação do familiar, do seguro, do que era conhecido. A margem que você deixa tem o nome de quem fica.

Emoções e desenvolvimento pessoal

A liberdade sobre a água aberta tem um custo que os que ficaram em terra raramente calculam antes de estar no meio do oceano: a liberdade e a responsabilidade chegam juntas, e não há como aceitar uma sem a outra. O navegante que está no meio do Atlântico não tem a opção de parar — tem que continuar porque parar no oceano não é uma opção que a água oferece. A travessia exige um nível de comprometimento que a margem nunca exigiu.

Para o desenvolvimento pessoal: por qual estrela você navega? Não a estrela dos planos de cinco anos ou dos objetivos trimestrais — a estrela que permanece visível quando o tempo fecha e todas as outras referências desaparecem. Os navegadores portugueses aprenderam a encontrar o Sul pela Cruz do Sul quando o Norte estava encoberto. Qual é a sua Cruz do Sul?

Interprete este sonho

1. Como estavam as águas? A condição do mar ou do rio reflete o estado emocional e psíquico do sonhador com uma precisão que raramente mente. 2. Você sabia para onde ia? A presença ou ausência de destino claro revela o grau de orientação que você tem na fase de vida atual. 3. A embarcação era sólida ou mostrava fragilidade? O estado do barco é o estado do ego — examine o que está resistindo e o que precisa de reparo. 4. Havia outros na embarcação? Quem navegava junto — e quem estava ao leme, quem cuidava das velas, quem estava apenas de passagem? 5. A presença de Iemanjá era sentida? A qualidade das águas — sua grandiosidade, sua intencionalidade — é o dado que revela se a navegação tem proteção do divino. 6. O sonho terminou com chegada ou com travessia em aberto? Onde no processo você está: ainda no oceano, ou avistando terra?

Lucidez onírica

A navegação lúcida é uma das experiências mais esteticamente ricas que o sonho lúcido pode oferecer — e uma das mais filosoficamente reveladoras. No estado lúcido sobre as águas abertas, a prática que mais completamente usa o potencial do símbolo é a de soltar o leme.

Não abandonar a embarcação. Não mergulhar. Apenas afastar as mãos do leme e observar. Para onde vai a embarcação quando deixa de ser dirigida pelo ego? Muitos praticantes descrevem que, ao fazer isso, a embarcação começa a se mover com uma direção que não é aleatória — ela vai para algum lugar específico, guiada por algo que não é o ego mas que parece saber o que está fazendo. Esta é a experiência direta do que Guimarães Rosa colocou no pai que escolheu o rio: a confiança de que a água sabe o caminho mesmo quando o mapa acabou.

Navegar é preciso. No sonho lúcido sobre as águas que foram de Iemanjá e do Amazonas e dos Lusíadas — navegar é tanto preciso quanto sagrado.