Estar Perdido
CriseOs Guarani andaram durante séculos à procura da Yvy marã e'ỹ — a Terra Sem Males. Não era um lugar marcado no mapa, porque o mapa não existia: era um lugar que existia à frente, sempre à frente, que se aproximava quanto mais se caminhava em direção a ele com pureza de coração e leveza de corpo. Os pajés Guarani ensinavam que o caminho para a Terra Sem Males exigia dançar, cantar, comer cada vez menos, e caminhar sem parar. Muitas comunidades partiram. Muitas se perderam no percurso — nas matas do Mato Grosso, nas serras do sul, nas praias do litoral. E ainda partiram outras depois delas.
O que é isso senão um povo que escolheu estar perdido como forma de fidelidade ao destino? Que preferiu o desorientamento da busca honesta à segurança da acomodação? Os Guarani que morreram sem chegar à Terra Sem Males não fracassaram — estavam no caminho. O fracasso seria ter parado.
Álvaro de Campos, o heterônimo mais irrequieto de Fernando Pessoa, escreveu: "Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo." É o paradoxo do estar perdido levado ao extremo: o homem que admite que não é nada — que não tem endereço fixo no mundo, que não encontrou o caminho que se supõe encontrar — e que descobre que nessa ausência de tudo, existe tudo. A perda total como condição do sonho total.
O sonho de estar perdido, no Brasil, carrega esses dois polos: o caminhar Guarani em busca do que não está no mapa, e o abismo luminoso de Campos onde a perda é a única identidade honesta.
O sertão que está dentro do homem
Riobaldo, o narrador de Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, está perdido em todos os sentidos que a palavra suporta. Geograficamente: ele atravessa o sertão de Minas Gerais sem mapa, sem bússola, com a certeza apenas de que o sertão não é linear e que os rios não são de fiar como guias. Moralmente: ele não sabe se fez ou não fez o pacto com o diabo, não sabe se o mal que viu e praticou foi seu ou de outros, não sabe se amou ou se matou de amor. Existencialmente: ele não sabe se existe um Deus ou um Diabo ou se o sertão apenas continua sendo o sertão.
A grande frase de Riobaldo — "O sertão está em toda parte" — é o mapa do estar perdido brasileiro. Não é apenas que o sertão é geograficamente vasto. É que o sertão é a condição interior de quem tenta encontrar um caminho num território que não se deixa cartografar pela lógica convencional. O sertão está dentro do homem, e por isso estar perdido no sertão é sempre, também, estar perdido em si mesmo.
Guimarães Rosa sabia, com a precisão de quem cresceu no sertão de Cordisburgo e voltou a percorrê-lo como médico, que o sertão exige um tipo de navegação diferente da navegação europeia: não o mapa e a bússola, mas o rastro, o cheiro de água, a sombra das árvores, a fala dos vaqueiros. Para navegar o sertão, é preciso uma inteligência que o sistema escolar nunca ensinará. E para navegar o estar perdido interior, é precisa uma inteligência que não se aprende nos livros de autoajuda.
A desorientação como condição brasileira
O Brasil é um país que por séculos não soube exatamente o que era. País de colonizados que queriam ser colonizadores europeus. País de escravizados que queriam liberdade numa estrutura que definia liberdade como posse de outros. País de mestiços que o século XIX chamou de problema racial e que o século XX chamou de democracia racial — ambas as versões erradas, nenhuma das versões verdadeira.
O sociólogo Gilberto Freyre tentou uma resposta: o Brasil era uma síntese. O ensaísta Sérgio Buarque de Holanda tentou outra: o Brasil era o país do homem cordial, do jeitinho, da adaptação. O escritor Paulo Prado tentou uma terceira: o Brasil era o país da tristeza. Nenhum chegou a um mapa que funcionasse para todos os territórios.
Estar perdido no Brasil é, às vezes, simplesmente estar no Brasil. É ser o filho de uma miscigenação que não tem precedente em nenhum outro lugar do mundo, num país que ainda não sabe bem como se narrar. O sonho de estar perdido para o brasileiro pode conter essa desorientação coletiva: não apenas onde vou mas quem somos, de onde viemos, para onde vai tudo isso.
Pessoa e o não-lugar como lugar
Fernando Pessoa — que nasceu em Lisboa mas se formou em português no Brasil, que escreveu em inglês e em francês além do português, que criou dezenas de personas para habitar porque nenhuma era suficientemente real — era o homem que encontrou no estar perdido a sua única casa estável.
Bernardo Soares escreve no Livro do Desassossego sobre percorrer as mesmas ruas de Lisboa noite após noite, sobre conhecer cada pedra de cada calçada, e ainda assim sentir-se um estranho. Não porque Lisboa seja desconhecida — é o lugar mais familiar do mundo — mas porque Soares não encontrou o ponto de encaixe entre o interior e o exterior, entre o que ele é e o que o mundo tem para oferecer. Ele está perdido não por falta de mapa mas por excesso de interior — por ter um mundo interno tão vasto que o mundo externo nunca parece suficientemente grande para acomodá-lo.
Esse estar perdido de Pessoa-Soares é o estar perdido do sensível que habita um mundo que não foi feito para a sua escala. E é um estar perdido que muitos brasileiros reconhecerão: a desorientação de quem sente demais num contexto que recompensa sentir pouco.
Situações típicas nos sonhos
Cenário: Perdido no sertão — a terra aberta, o céu grande, nenhum caminho: O sertão onírico é o lugar onde as coordenadas convencionais não funcionam. Não há prédios, não há sinais de trânsito, não há nada exceto a imensidão seca e bela. Esse sonho de perda na vastidão convida à mesma questão que Riobaldo: você está perdido porque faltam marcos externos, ou porque ainda não aprendeu a se orientar pelo interior? O sertão exige que você se torne seu próprio guia. O que você sabe, a partir de dentro, que o mapa nunca poderia te ensinar?
Cenário: Perdido numa cidade que deveria ser familiar — as ruas não fazem sentido: A cidade conhecida que se torna labiríntica é o sonho do ambiente familiar que perdeu a inteligibilidade. Algo mudou — em você ou no ambiente — e os velhos caminhos não levam mais aos destinos esperados. É o sonho das transições de vida: quando o mapa que você tinha para essa fase da existência não serve mais para a fase que começa. Não porque o mapa era errado — mas porque o território mudou.
Cenário: Perdido e descobrindo que não importa — a exploração livre: A versão Guarani do estar perdido: não ter mapa mas ter direção interior. Não saber exatamente onde se está mas saber que está no caminho. Esse sonho, em que a desorientação geográfica coexiste com uma paz surpreendente, é o que os Guarani experientes conheciam: que a Terra Sem Males não está no GPS, e que a bússola que importa é interna. Você está nesse ponto?
Cenário: Perdido e procurando alguém — você sabe quem, mas não onde: A busca específica no interior da desorientação. O estar perdido não é vazio; está orientado para um objeto de busca. Quem é essa pessoa? Na maioria dos sonhos de busca dentro do estar perdido, a pessoa que se procura é um aspecto do próprio sonhador — uma versão anterior ou futura de si mesmo, uma qualidade perdida no percurso da vida, um potencial que foi deixado para trás numa encruzilhada. Riobaldo procurou Diadorim por todo o sertão. O que você está procurando no seu?
Cenário: Perdido, e um guia aparece: O sonho providencial — quando no ponto de maior desorientação uma figura se apresenta com um caminho ou com um sinal. Na tradição indígena, esse guia é o espírito do lugar. Na tradição afro-brasileira, pode ser Exu abrindo o caminho ou Ogum cortando o mato com o facão. Na tradição pessoana, é o heterônimo que você ainda não inventou — a voz interior que sabe o caminho e que você ainda não aprendeu a ouvir. Quem apareceu no seu sonho? O que essa figura representa?
O jeitinho como navegação do imprevisto
O jeitinho brasileiro — essa capacidade cultural de encontrar uma solução onde o regulamento diz que não existe saída — é, entre outras coisas, a arte de não estar permanentemente paralisado pelo estar perdido. O brasileiro que se perde numa cidade desconhecida não fica parado esperando o GPS funcionar: ele pergunta ao primeiro que passa, improvisa, contorna, encontra uma saída que não estava no mapa porque nunca foi mapeada.
Isso não é virtude irrestrita — o jeitinho tem suas dimensões problemáticas, suas cumplicidades com a corrupção e com o descaso pelas regras. Mas como resposta ao estar perdido, ele tem uma sabedoria que o planejamento europeu não contém: a certeza de que o caminho não é sempre onde o mapa diz, e que as melhores saídas às vezes são as que se improvisa no momento.
O sonho de estar perdido no Brasil pode estar te convidando para o seu próprio jeitinho interior: não esperar o mapa certo, não esperar a certeza antes de dar o próximo passo, mas confiar na inteligência improvisada que encontra o caminho no próprio ato de caminhar.
Emoções e desenvolvimento pessoal
A ansiedade é a emoção mais comum no sonho de estar perdido — mas ela tem camadas. Debaixo da ansiedade, frequentemente há vergonha: a vergonha de não saber para onde vai, de não ter o plano que todos os outros parecem ter. E debaixo da vergonha, às vezes, um alívio secreto: a possibilidade de que se você está perdido, talvez as expectativas que lhe foram impostas não se apliquem mais. Talvez o caminho errado seja a saída de uma direção que nunca foi sua.
O desenvolvimento sugerido por esse símbolo é a tolerância ao não-saber como condição permanente da vida significativa. Os Guarani não chegaram à Terra Sem Males, mas o caminho que percorreram foi a Terra Sem Males. O sertão de Riobaldo não resolveu a questão do diabo, mas a travessia do sertão foi a resposta. O caminho é o destino — mas isso só se compreende tendo estado perdido tempo suficiente para saber que perder-se não é o oposto de chegar.
Guia de interpretação
1. Em que território você estava perdido? Sertão, cidade, floresta, espaço sem nome — o território tem uma alma própria e aponta para a dimensão da vida onde a desorientação está localizada. 2. Você estava procurando algo específico ou apenas sem direção? A busca com objeto é diferente da desorientação pura: ela tem uma orientação oculta que o sonho pode estar revelando. 3. Como você reagiu — com pânico, com calma, ou com curiosidade? A atitude diante do estar perdido é o retrato da sua relação com a incerteza na vida desperta. 4. Havia outros perdidos com você, ou você estava sozinho? A solidão ou a companhia na desorientação muda a experiência completamente — e revela se você sente que sua situação é única ou compartilhada. 5. Um guia apareceu? Quem ou o quê? A figura de orientação que emerge no momento da maior desorientação é frequentemente o comunicado mais importante do sonho inteiro. 6. O sonho resolveu o estar perdido, ou terminou ainda sem saída? O desfecho indica onde você está no processo — ainda no meio do sertão, ou vendo a primeira luz da beira da floresta.
Sonho lúcido
No sonho lúcido de estar perdido, a tentação imediata é usar o poder da lucidez para saber onde está — para invocar um mapa, para voar até um ponto alto e ver o território. Às vezes isso é exatamente o que o sonho precisa. Mas a prática mais transformadora é outra.
Quando lúcido em estado de desorientação onírica, pergunte ao próprio ambiente — às árvores, às pedras, ao vento, às paredes do labirinto — como se o sertão inteiro pudesse responder: para onde estou sendo guiado? E então, em vez de planejar o caminho, siga o primeiro impulso que emergir do corpo. Não da cabeça. Do corpo.
Essa é a navegação Guarani, a navegação do sertanejo, a navegação de Riobaldo que sobreviveu ao sertão não porque tinha mapa mas porque aprendeu a escutar o sertão. O sonho lúcido de estar perdido é a oportunidade de praticar exatamente essa escuta — de descobrir, no estado onde a consciência está mais acordada, que a orientação que importa sempre esteve disponível. Estava esperando você parar de procurar o mapa certo para se ouvir.