Bebê Chorando

Pessoas

Em setembro, no Brasil, vende-se amendoim nas feiras, e os terreiros de Umbanda e de Candomblé preparam as mesas para Cosme e Damião. Os santos gêmeos — Ibeji no iorubá — são as crianças sagradas, e as suas festas incluem distribuição de doces para as crianças do bairro inteiro: pipoca, amendoim torrado, cocada, pirulito. É uma das festas mais alegres do calendário religioso afro-brasileiro, e ao mesmo tempo uma das mais carregadas de sentido: os Ibejis não são crianças sentimentalizadas ou decorativas. Eles são entidades que residem no limiar entre o mundo dos vivos e o mundo dos espíritos, que ainda não fizeram completamente a travessia da pré-existência para a existência plena, que guardam na memória do corpo o lugar de onde vieram.

O choro do bebê nos terreiros de Umbanda tem uma conotação diferente do choro de bebê nas casas comuns. Quando uma criança — a entidade, não a pessoa — se manifesta num médium, ela chora, ela balbucia, ela pede colo: não por fraqueza ou por manipulação, mas porque a linguagem pré-verbal é a linguagem mais honesta que existe. A criança da Umbanda chora porque está comunicando algo que as palavras adultas não conseguem dizer — e o terreiro aprende a ouvir esse choro como mensagem, não como inconveniente.

O bebê que chora no sonho está falando nessa mesma linguagem pré-verbal: diretamente, urgentemente, sem as mediações que a consciência adulta instalou entre a necessidade e a expressão. O que está chorando em você tem uma precisão que as suas palavras habituais não alcançam. O sonho coloca esse choro na sua frente e espera que você aprenda a ouvi-lo.

O curumim e o limiar dos mundos

Na cosmologia Tupi-Guarani, a criança recém-nascida — o curumim — ainda não foi completamente separada do mundo espiritual de onde veio. Ela é aíju, o que chegou recentemente, o que ainda carrega no corpo o cheiro do outro lado. As primeiras semanas de vida são um período de limiaridade — a criança está entre dois mundos, ainda não totalmente comprometida com este, ainda com acesso ao que existe antes do nascimento e depois da morte.

É por isso que, em muitas tradições indígenas brasileiras, os recém-nascidos são cuidados com rituais específicos que têm a função de ancorar a criança neste mundo — de completar a travessia, de confirmar o pertencimento ao plano terreno. A criança que não é adequadamente ancorada pode "voltar" — pode morrer não porque está doente, mas porque ainda não decidiu completamente ficar. O choro do bebê, nessa perspectiva, não é apenas comunicação de necessidade física: é o sinal de uma negociação entre mundos que ainda não foi concluída.

Quando o bebê chora no sonho, ele pode estar carregando essa dimensão: um aspecto de você mesmo que ainda não completou uma travessia, que ainda está no limiar entre o que era e o que está se tornando, que precisa de um ancoramento — de uma afirmação de pertencimento, de uma presença que confirme que vale a pena ficar.

Clarice e as crianças que falam antes da linguagem

Clarice Lispector tinha uma fascínio particular pela linguagem da criança — não pela linguagem que a criança aprende dos adultos, mas pela linguagem anterior, a que ela chamava de "a coisa" ou "o neutro": o estado de experiência pura antes que a palavra venha nomear e, ao nomear, reduzir.

Em Perto do Coração Selvagem, Joana criança tem visões e sensações que a linguagem adulta não consegue conter. Em A Maçã no Escuro, a criança aparece como aquela que ainda sabe que o mundo é estranho e maravilhoso, que ainda não aprend eu a fingir que não é. Em A Hora da Estrela, Macabéa é descrita como tendo algo de criança — uma pré-consciência, uma inocência que não é ingenuidade mas que é anterior à corrupção.

O bebê que chora nos sonhos de Clarice seria, quase certamente, lido pela escritora como o it — aquela dimensão da experiência que existe antes e além do eu construído, que não tem palavras mas que tem urgência. O choro seria a urgência mais primitiva: eu preciso, eu existo, esteja presente.

O bebê que chora no seu sonho está dizendo isso: eu preciso, eu existo, esteja presente. A questão é saber — presente para quê, ou para quem dentro de você.

Os Ibejis e a alegria que também chora

Cosme e Damião — os Ibejis, os santos gêmeos — são figuras únicas no panteão afro-brasileiro porque são simultaneamente tragédia e alegria. A história original dos santos históricos (médicos sírios do século III que foram martirizados) foi fundida com a tradição iorubá dos gêmeos sagrados, que são tratados como entidades especialmente poderosas precisamente porque desafiam a singularidade do self: onde se esperava um, são dois. Onde se esperava unidade, há duplicidade. Os Ibejis jogam amarelinha no limiar entre o mundo dos humanos e o mundo dos Orixás, e o seu choro e o seu riso são a mesma coisa: a criança que sente com o corpo inteiro, sem moderação, sem gestão emocional, sem o aprendizado adulto de que não se chora em público.

Sonhar com um bebê que chora, no contexto de quem tem relação com as tradições afro-brasileiras, pode ser o Ibeji manifestando-se no sonho — pedindo atenção, pedindo doces (metaforicamente: pedindo o que alimenta a dimensão mais jovem e mais espontânea do ser), pedindo que alguém se abaixe até a altura dele e preste atenção ao que ele está tentando comunicar.

Psicologia do sonho

Winnicott dividiu a personalidade em self verdadeiro — o que existe antes das adaptações, que tem impulsos e respostas genuínas — e self falso, construído para satisfazer as expectativas externas. O bebê que chora no sonho é quase sempre o self verdadeiro: aquela parte que não aprendeu ainda a calar as necessidades, que não desenvolveu ainda as estratégias de disfarce que os adultos precisam para funcionar em sociedade, que comunica diretamente o que sente porque ainda não sabe fazer diferente.

Para pessoas que foram criadas em ambientes onde necessidades eram vistas como inconveniências — onde chorar era "fraqueza", onde pedir ajuda era "ser problemático", onde sentir intensamente era "exagero" —, o bebê que chora no sonho pode ser literalmente o aspecto interno que nunca foi atendido, que ainda está esperando o cuidado que não chegou. O choro que dura décadas porque nunca encontrou resposta.

A teoria do apego de Bowlby é diretamente relevante aqui: o padrão de apego formado nos primeiros anos — a resposta consistente ou inconsistente ao choro do bebê — determina estruturas relacionais que duram a vida inteira. O bebê onírico que chora sem resposta pode estar encenando o padrão de apego inseguro que se formou na infância e que continua a operar nos relacionamentos adultos. E o sonhador que finalmente pega esse bebê no colo — que responde ao choro, que oferece o calor que faltava — pode estar praticando, no espaço seguro do sonho, um padrão de apego diferente.

Variantes oníricas frequentes

Cenário: Um bebê chora e você não consegue encontrá-lo: O choro que você ouve mas cuja fonte não consegue localizar — você segue o som que parece mudar de direção. Simbolicamente, há uma necessidade que está sendo sentida mas que ainda não foi identificada claramente: algo em você está em sofrimento mas você ainda não soube nomear o que é.

Cenário: Um bebê que você não consegue consolar: Você tem o bebê nos braços, tenta tudo, e o choro não para. A impotência diante do sofrimento que não se consegue aliviar frequentemente espelha uma situação da vida desperta onde o sonhador sente que os seus recursos de cuidado — de si mesmo ou de outros — são insuficientes.

Cenário: Você encontra um bebê abandonado: O anjinho que ninguém está cuidando, em algum lugar improvável — num corredor, numa caixa, numa situação em que definitivamente não deveria estar sozinho. Esse é frequentemente o encontro com o aspecto de si mesmo que foi deixado para trás no processo de crescer: a criança interior que o processo de socialização depositou num lugar onde ninguém fosse procurar.

Cenário: Um bebê que para de chorar quando você o pega: O sonho que inclui tanto a necessidade quanto a resposta — o choro que cessa com o cuidado, o bebê que se acalma no colo. Esse é o sonho da integração: a capacidade de responder às próprias necessidades, de oferecer a si mesmo o acolhimento que o bebê interior precisa. No contexto afro-brasileiro, é o Ibeji satisfeito, a criança sagrada que recebeu os seus doces.

Cenário: O bebê em perigo além do choro: A urgência aumenta proporcionalmente: não apenas necessidade de cuidado cotidiano, mas de atenção emergencial. Algo no sonhador — uma necessidade, um aspecto da vida interior — está em estado crítico e pede uma resposta que não pode mais ser adiada.

Emoções e desenvolvimento pessoal

A emoção que um bebê chorando desperta no sonho varia consideravelmente de acordo com a história pessoal do sonhador — e essa variação é em si mesma informativa. Para alguém com infância de necessidades cronicamente não atendidas, o bebê que chora pode despertar uma mistura complexa de identificação e dor, e às vezes uma raiva que surpreende: a raiva de que ninguém atendeu ao choro, de que o sistema ensinou a desistir de pedir. Para alguém que está passando por uma fase de excessiva autossuficiência, o bebê pode despertar uma ternura inesperada — o coração respondendo ao chamado de uma vulnerabilidade que a mente havia decidido não reconhecer.

O trabalho que esses sonhos frequentemente iniciam está na área que os terapeutas chamam de auto-compaixão: a capacidade de se relacionar com as próprias necessidades e fragilidades com a mesma ternura com que se relacionaria com um bebê em sofrimento. Para muitas pessoas educadas na cultura brasileira de "engolir seco" e de "não reclamar" — especialmente homens, para quem o choro foi ensinado como vergonha —, esse é um dos trabalhos mais difíceis e mais necessários.

O Ibeji que pede doce na festa de setembro não está sendo mimado — está exercendo o direito sagrado de receber o que nutre. O bebê interior que chora no sonho está exercendo o mesmo direito.

Interprete este sonho

1. O bebê do sonho era seu ou de alguém desconhecido? A distinção entre cuidar de algo claramente seu e assumir responsabilidade por algo que chegou de fora é psicologicamente relevante. 2. Você conseguiu responder ao choro? A presença ou ausência de recursos para cuidar é o dado central do sonho — ela mapeia a relação atual do sonhador com as suas próprias necessidades. 3. O choro parou — houve resolução? A presença ou ausência de alívio informa sobre onde está o processo de elaboração. 4. Havia algo de Ibeji na cena — gêmeos, amendoim, alegria misturada com pranto? No contexto afro-brasileiro, a presença desses elementos aponta para uma dimensão espiritual específica do sonho. 5. Há algo na sua vida atual que está "chorando por atenção" — alguma necessidade, algum projeto, algum aspecto de si mesmo que está sendo ignorado? O bebê é frequentemente a personificação dessa necessidade não atendida. 6. Há uma área da sua vida onde você precisa ser mais gentil consigo mesmo? Essa pergunta, feita com honestidade, frequentemente aponta diretamente para o que o sonho está comunicando.

Sonho lúcido

Encontrar-se diante de um bebê que chora no estado lúcido é uma das experiências que testam a capacidade de presença de uma forma especialmente direta. A tentação de "resolver" o sonho — de magicamente fazer o choro parar — deve ser resistida em favor de uma presença mais genuína: simplesmente estar com o bebê, pegá-lo nos braços, deixar que o contato aconteça.

Muitos praticantes brasileiros de sonho lúcido descrevem que simplesmente pegar o bebê onírico no estado lúcido — com plena consciência de que é um sonho, de que essa criança é uma parte de si mesmo que está pedindo atenção — tem um impacto emocional que persiste para muito além do sonho. Como se o ato de finalmente responder, conscientemente, ao chamado que estava esperando há talvez décadas tivesse um efeito de resolução que a vigília não conseguia sozinha.

A pergunta que pode ser feita ao bebê no estado lúcido não precisa de palavras — pode ser uma pergunta gestual, uma escuta do choro em vez de uma tentativa de silenciá-lo. O que o bebê está comunicando, quando ouvido com plena presença consciente, frequentemente tem uma precisão que surpreende: não apenas no sonho, mas na vida do sonhador.